“Tenho medo.
Medo de não conseguir.”
Depois de um tempo, se descobre:
“Tenho medo, medo de conseguir”.
Que raio de medo é esse, afinal —
medo de conseguir?
O que se esconde aí?
“No começo, achei que esse muro
tinha sido colocado por algo de fora:
o universo,
o desalinho dos planetas,
os imprevistos,
as pessoas que não sabem viver do jeito certo”.
Mas então se revela:
“Boa parte dele,
eu mesmo construí.
E sigo fazendo manutenção diária”.
Ouvem-se tantas coisas.
Mas raramente se escuta:
e se, por trás do muro,
as coisas não forem assim tão perfeitas?
Será que o obsessivo
não está o tempo todo se contando
que a satisfação completa existe, sim —
escondida,
atrás do muro?
E assim, segue:
fugindo com destreza
do encontro inevitável
com a incompletude.
Texto-poema de Diego Netto (praticante e aluno em Gradiva)