“É somente em relação à verdade que pode
haver algo escondido. É por isso
que é a verdade que está
escondida e não a carta”
(Lacan, J. O seminário, livro 2).
O conto
Dupin está com o seu amigo em sua biblioteca, rodeado de fumo proveniente de um cachimbo de espuma. De repente, entra o prefeito da polícia de Paris, há algo de estranho no reino de França. Odd, em inglês, algo fora do lugar. Outro assassinato? Pergunta Auguste Dupin. Não, diz o prefeito da polícia de Paris. Roubaram uma carta da rainha que põe em risco a sua honra e liberdade. O prefeito pede a ajuda de Dupin para resolver o enigma da ocultação da carta. Há meses que andam a dar voltas à cabeça por causa de algo que parece tão simples quanto desconcertante. Simples e estranho: um adjetivo que se repete no primeiro diálogo entre os dois.
O prefeito dá algumas pistas sobre o que se está a passar. Dupin, sabendo sem saber, acerta em cheio e diz: “talvez seja a grande simplicidade da coisa que os engana”. O prefeito continua a relatar, com uma precisão crescente devido à insistência de Dupin nos pormenores, do que se trata e sobre o que pede a opinião de Dupin. Acrescenta que a sua honra está em jogo, uma vez que se trata de um assunto que exige o maior secretismo e no qual está envolvida uma grande recompensa monetária.
Nesse sentido, o prefeito da polícia de Paris pode ser o “paciente” no conto que pede ajuda a Dupin, o “analista”, para resolver o enigma da carta roubada.
Primeira cena: o roubo da carta
A rainha está sozinha no seu boudoir real quando recebe uma carta. Enquanto a lê atentamente, entra o rei, de quem desejava especialmente escondê-la. Na tentativa fugaz de esconder numa gaveta, vê-se obrigada a deixá-la aberta sobre a mesa. O endereço é virado ao contrário, mas o conteúdo permanece oculto. Passa desapercebido pelo rei. Mas é nessa altura que entra o Ministro e, com o seu olhar aguçado, vê rapidamente a carta e reconhece a caligrafia e o endereço. Observa a confusão da rainha e investiga o seu segredo, substituindo a carta da rainha por outra carta.
O ministro tira do bolso uma carta muito parecida com a carta em questão. Abre, finge que lê e a deixa justaposta à outra. Continua a tratar de assuntos públicos e, passado pouco tempo, despede-se e tira a carta da rainha de cima da mesa. Ela apercebe-se imediatamente do que aconteceu, mas não pode chamar a atenção para o fato, não pode falar, pois o rei está presente. O ministro vai embora, e assim, na posse da carta da rainha, passa 18 meses a usar o poder de ter para fins políticos.
Segunda cena: a recuperação da carta
A segunda cena será uma repetição da primeira em alguns aspectos, como por exemplo, a posição de cada personagem na história. Desde então, a pedido da rainha, a polícia passou meses à procura da carta em todos os lugares onde foi roubada: no edifício, na casa do ministro, nos móveis, na biblioteca. Uma busca meticulosa, microscópica e exaustiva. Uma busca em que o prefeito lhes garante que nem a quinquagésima parte de uma linha lhes pode escapar. E, mesmo assim, não a encontra pelo que pede conselho a Dupin.
Eles conversam um pouco mais e o prefeito vai-se embora. Um mês depois, regressa para se encontrar na mesma situação. Dupin pergunta-lhe qual é o montante da recompensa. O prefeito responde que dará cinquenta mil francos a quem o ajudar no caso. Dupin pega então no livro de cheques e diz: “Pode passar-me um cheque com essa quantia. Quando o tiver assinado, dou-lhe a carta”. E assim acontece.
Uma vez resolvido o assunto, Dupin explica ao seu amigo os erros da polícia, descrevendo as suas ações como sendo demasiado profundas, ou talvez demasiado superficiais. Diz ainda que, se enganaram tantas vezes, foi, em primeiro lugar, porque lhes faltou essa identificação – refere-se à criança que consegue sempre ganhar o jogo do par ou ímpar, observando a astúcia do adversário. Diz-lhe: “não vêem senão as suas próprias ideias engenhosas e, quando procuram algo escondido, pensam apenas nos meios que teriam utilizado para o esconder”.
O gênio de Dupin permite-lhe resolver o enigma seguindo a sua orientação inicial, de que talvez fosse algo simples e óbvio. Para demonstrar isto ao seu amigo, refere-se a um jogo de puzzle em que, num mapa, um dos jogadores pede a outro jogador que encontre um determinado nome de uma cidade, rio, estado ou qualquer palavra que apareça na extensão do mapa. Um principiante no jogo tenta normalmente encontrar um nome em letras minúsculas para dificultar a sua procura. Mas, quem está habituado ao jogo, escolhe nomes que apareçam com os caracteres mais grossos estendidos de ponta a ponta no mapa. Assim, estas palavras escapam ao olhar pela sua própria obviedade.
Uma questão que ultrapassa a compreensão do prefeito que nunca acreditou que o ministro deixaria a carta debaixo do nariz do mundo inteiro, a vista. O ministro tinha escondido a carta, precisamente por não tentar escondê-la de todo. Dupin, convencido destas ideias, aparece, como que por acaso, na casa do ministro, usando um par de óculos verdes. Enquanto fala com ele, olha para a sala e repara que a carta está pendurada na lareira. Estava ali, abandonada, um pouco rasgada, amarrotada, disfarçada (com um carimbo preto e não vermelho como na descrição dada ao prefeito) e, sobretudo, à vista de todos, no lugar mais óbvio, ao alcance da mão.
Dupin conta que o Ministro tinha feito um trabalho na carta: tinha-a virado do avesso, como a Rainha tinha feito. O nome tinha sido mudado, a caligrafia era feminina, como se fosse dirigida ao Ministro, e tinha um aspecto gasto e estava quase rasgada em dois. Uma vez localizada a carta, Dupin regressa e, enquanto está a conversar com o ministro, um louco na rua, pago por Dupin, dispara uma pistola. Este fato distrai a atenção do ministro e Dupin apodera-se da carta, substituindo-a por outra de aspecto muito semelhante. Agora, a Rainha a tem em sua posse.
Freud
Segundo Freud, a palavra “Unheimlich” em alemão é oposto a “Heimlich”(doméstico) – o oposto do que é familiar. Unheimlich é traduzida como “não confortável”, “inquietante”, “incomum” ou “estranho, misterioso”. É algo que não é familiar e nos faz sentir desconfortáveis. Relaciona-se com o que é assustador, com o que provoca medo ou horror. O estranho é aquela categoria do assustador que remete ao que é conhecido, de velho, e há muito familiar. Contudo, nem tudo que é novo é não familiar é assustador.
Outra definição de Heimlich: escondido, oculto da vista, de modo que os outros não consigam saber. Fazer alguma coisa Heimlich, por trás das costas de alguém, comportar-se Heimlich, como se houvesse algo a esconder. A palavra Heimlich pertence a dois conjuntos de ideias que, sem serem contraditórias, ainda assim são muito diferentes. Por um lado, significa o que é familiar e agradável e, por outro, o que está oculto e se mantem fora de vista. É uma palavra ambivalente.
O conto dá a ideia de que não existe um significado claro, conhecido, objetivo e racional para a situação: o que diz a carta? Quem a enviou? Que segredo revela? A história é muito imaginativa e descritiva, o que gera estranheza: o sentimento do leitor é a procura do “não dito”, do escondido. A narrativa baseia-se em grande parte no conteúdo manifesto e no conteúdo latente, ou seja, o que é aparente, o que é mostrado e o que é desconhecido, escondido. A sensação do leitor é a busca velada: “… é o nome de tudo o que deveria ter permanecido secreto e oculto, mas veio à luz (Freud, 1919).
Lacan
“A Carta Roubada”, escrito por Edgar Alain Poe, é um conto sob o título “The purloined letter”. “Purloined”, como ampliada em seu alcance por um desvio lateral prévio. É a carta desviada que nos ocupa, aquela cujo trajeto foi alongado (prolongé) ou la lettre en souffrance, a carta não retirada, em suspenso. Purloined letter faz referência ao percurso prolongado da carta, que deve chegar ao seu destino/destinatário, mas esse caminho está em souffrance, em suspensão, em sofrimento.
Simple and odd, simples e estranho, eis aí reduzida a singularidade da carta/letra que é o verdadeiro sujeito do conto: é por poder sofrer um desvio que ela tem um trajeto que lhe é próprio. A posse da carta, segundo Lacan, determina o lugar de cada personagem na história. Ela opera e exerce seus efeitos sem que o sentido seja revelado. Portanto, o conteúdo da carta é indiferente e representa o inconsciente de cada personagem. A carta tem o seu conteúdo oculto, porém, mais do que o conteúdo, o que importa é quem a possui. O que é decifrado é o enigma da ocultação da carta. O sentido da letra no conto pode ser extraído: trata-se da traição do pacto que liga a rainha ao rei.
A segunda cena do conto pode ser considerada como uma repetição da primeira: cena em que se repete a mesma ação – o roubo de uma carta – e em que se distinguem lugares, posições, relações e tempo. Há três tempos neste conto, que são ordenados por três olhares sustentados por três sujeitos. Sujeitos que são encarnados por diferentes personagens.
Primeiro, um olhar que nada vê (cego): o rei e depois a polícia. Em segundo lugar, um olhar que vê que o primeiro nada vê (o olhar cego) e que se engana por ver encoberto o que ele oculta: este é encarnado primeiro pela rainha e depois o ministro. E, em terceiro lugar, um olhar que vê, desses dois olhares, que eles deixam a descoberto o que é para esconder, para que disso se apodere quem quiser: o ministro e depois Dupin.
Conclusão
As posições das personagens repetem-se nas duas cenas. A polícia não pode encontrar a carta, porque a procura precisamente no espaço físico da realidade. Procuram-na à força e no real. Em todo o caso, o que está em causa é precisamente o fato de a polícia não ter consciência de que a carta não se encontra em lado nenhum. Então, segundo Lacan, no seminário sobre a carta roubada, o que falta no seu lugar é o que está escondido: “Se a carta falta no seu lugar, isso indica que pode mudar de lugar, ou seja, o simbólico”.
A carta é uma personagem no conto e a causa do desejo de cada um. O objeto causa de desejo leva cada personagem a agir. A carta é o objeto que faz circular o desejo de cada um no conto e a causa do desejo é o que faz com que todos se movam. Por fim, se “todo ponto que demanda reflexão”, como profere Dupin, “oferece-se mais favoravelmente ao exame na obscuridade”, podemos ler agora sua solução, na qual em uma comunicação intersubjetiva, o emissor recebe do receptor sua própria mensagem sob forma invertida. Assim, o que quer dizer “a carta roubada”, ou em suspenso/sofrimento (lettre ensouffrance), é que uma carta sempre chega a seu destino.
Bibliografia
LACAN, J. O seminário, livro 2: o eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise (1954-1955). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985.
LACAN, Jacques. Seminário sobre “A carta roubada”. In: Escritos. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998. p. 11-66.
FREUD, Sigmund. O “Estranho” (1919). Em: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Vol. XVII. Rio de Janeiro: Imago, 1980.
Texto escrito por Deborah Bentes