1.
Eu gosto da cozinha: neste cômodo, acomodo, além das refeições, minhas relações e emoções. Sinto imenso prazer descascando coisas e lavo louça para pensar. Saber e sabor, aliás, nunca andaram separados, nem mesmo no latim. Do termo –sapere sairão dois sentidos: sabor, perceber o gosto; e saber, ser sábio, compreender.
Sendo a cozinha um espaço tão historicamente reservado às mulheres, foi aí, na milenar escola das tarefas domésticas, que elas fizeram saber virar sabor, e sabor, saber.
2.
A jovem mexicana Juana Inés de La Cruz deixa preciosa lição sobre como se movimentar a partir deste lugar, à primeira vista, de limitação. No século 17, autoditada e vetada de estudar durante três meses, descobrira por si mesma cinética químico-térmica com um ovo frito: “ainda que não estudasse nos livros, estudava em todas as coisas que Deus criou (…). Percebo que o ovo se junta se o frito na manteiga ou no óleo e, pelo contrário, se despedaça se o frito em almíbar”. Sim, é uma aula sobre velocidade das reações.
3.
Rebobino a fita até uma cozinha ainda mais antiga, a do gênesis, onde há um jardim com luxuriante vegetação. Apesar da oferta abundante de comida, o interdito era precisamente o que aumentava a fome de Eva pelo fruto do conhecimento. É lindo o instante em que ela está diante da árvore, na tradução de Haroldo de Campos:
viu a mulher
que era boa a árvore para comer
e uma delícia para os olhos
e aprazível a árvore que dá conhecimento
e tomou de seu fruto e o comeu
e deu também ao homem junto a ela
e ele comeu
Boa para comer, delícia para os olhos, aprazível: Eva se relaciona com o jardim de forma sensorial, tátil e estética. Os sentidos estão todos ali – a visão está presente, o paladar está presente, o tato, presente.
Nesta primeiríssima cozinha, a mulher não se interessa em disfarçar o sabor que o saber tem: a aquisição do conhecimento se dá pela pele da mão na pele da fruta que é não apenas divina como maravilhosa. É gostoso saber das coisas e, mais gostoso ainda, é partilhar este saber-sabor com o outro, com o homem junto a ela.
Ao tocar e comer, Eva inaugura um tipo de conhecimento-prazer que só se alcança arriscando o corpo e a vida. Mas, à ameaça amarga da morte, Eva se impõe como antídoto duplamente porque carrega no próprio nome o verbo viver, do hebraico hayá, e porque ela, somente ela, carrega a capacidade de multiplicar vidas.
4.
Se experimentar é correr perigo, tudo bem: sabe quem experimenta o sabor que o fruto tem, com casca, com risco, com tudo. E eu, que gosto muito da cozinha, penso na vanguarda doméstica enquanto lavo a louça do dia anterior.
Texto de Elizama Almeira (aluna em Gradiva)