Após um longo debate sobre o amor, durante a leitura e análise de O Banquete de Platão, Jacques Lacan segue seu caminho rumo ao amor de transferência, trazendo luz às fases da sexualidade infantil apresentadas por Sigmund Freud.
Senti-me particularmente causada pelo retorno a essas fases, por perceber que, para falar de amor, é preciso falar da constituição do sujeito. Da infância. Como, então, o amor poderia se fazer presente nessa leitura?
Lacan traz a ideia de que o campo do eu e o campo do Outro se instauram juntos. Na fase oral, a criança traria a demanda de alimentação, que logo se torna demanda de amor. Na fase anal, a demanda passa a ser do Outro para com a criança, que logo percebe seu poder diante dele. A fase fálica chega, então, com a falta de resposta do Outro diante da excitação dirigida a si mesma, com a qual a criança se depara. O Outro falta. O que pode, então, acontecer a partir dessa falta?
O movimento inicial infantil é o de se oferecer como a parte que falta à mãe, cabendo a ela sustentar-se também como sujeito faltoso. Sujeito que não pode ser completado pelo filho; que deseja também o filho, mas não somente a ele.
Se toda falta abre espaço para o desejo, Lacan articula que amar é, então, dar o que não se tem. Quando a mãe oferece essa falta à criança, é então que ela pode desejar.
Amar, então, seria a permissão para que o sujeito deixe o desejo advir?
Ontem, ouvindo Ana Suy falar sobre amor, pude pensar um pouco mais sobre esse circuito.
O amor, então, é a possibilidade de se afastar do Outro para que seja possível constituir-se como sujeito desejante e ter, assim, a possibilidade de se aproximar das pequenas parcelas dele a partir das quais algum laço pode se construir, sustentado pelo enredo fantasioso singular de cada sujeito.
A partir dessas pinceladas, fui causada, então, por outra pergunta: seria o amor de transferência um circuito similar?
Lacan trilha um caminho para responder a essa pergunta, trazendo a reflexão de que esse seria, sim, o padrão de enlaçamento com os outros a fim de amá-los. Cada sujeito constrói seu percurso de acordo com seu próprio enredo desejante.
Esse padrão, então, torna-se útil, entendendo que são esses enredos que se farão presentes no divã com a chegada à análise, e que serão endereçados à figura do analista. A partir desse circuito, entendemos que é esse amor de transferência que torna possível o trabalho analítico.
Texto escrito por Carolina Eifler (praticante e aluna em Gradiva)