A partir de 1920, com a introdução da segunda tópica — eu, isso e supereu —, a teoria freudiana sofre um deslocamento decisivo: a vida psíquica passa a ser pensada não apenas em termos de conflito entre sistemas, mas como uma dinâmica marcada pela incidência da pulsão de morte, pela reorganização das instâncias e pelo papel central do supereu. Esse movimento não se restringe à clínica individual; ele redefine o modo como Freud pensa a cultura, os laços sociais e os impasses da civilização.
Os chamados textos culturais desse período não são aplicações secundárias da teoria, mas lugares privilegiados em que Freud radicaliza suas hipóteses metapsicológicas. Neles, a cultura aparece como campo de inscrição do conflito pulsional, no qual a renúncia exigida pela vida coletiva se articula à produção de culpa, sofrimento e formas específicas de laço social.
Na contemporaneidade, esses textos ganham renovada atualidade. O enfraquecimento de referenciais simbólicos estáveis, a intensificação das exigências de desempenho e gozo e a transformação das formas de autoridade colocam em evidência novas configurações do supereu — frequentemente mais cruéis, difusas e imperativas. Retomar Freud nesse ponto permite não apenas uma leitura crítica do presente, mas também uma reorientação da escuta clínica frente aos modos atuais de sofrimento.
O curso se organiza a partir da leitura rigorosa dos principais textos culturais de Freud no período da segunda tópica. O percurso proposto busca sustentar três linhas de leitura: