Angústia: uma leitura lacaniana

Grupo de estudo | Andrea Tavares
Andrea Tavares
Andrea Tavares - Psicanalista. Coordenadora do encontro de leitura comentada do Seminário XX. Professora no Instituto Gradiva.

Sabemos que a angústia não é um termo que circula no discurso da ciência do nosso tempo, muito menos na lógica de mercado, que visa excluir da cena do mundo a subjetividade e a dor de existir. Em seu lugar, surgiram inúmeras nomeações — crise de pânico, ansiedade, estresse, transtornos e déficits — que ganharam espaço no senso comum e também no campo clínico.

É pela via do discurso analítico que Jacques Lacan toma a angústia como um índice, apontando que aqueles que se dispõem a receber analisandos — especialmente os iniciantes —, por vezes, se angustiam na prática clínica. Lacan avança na precisão conceitual ao transformar esse afeto em um operador da experiência analítica, fazendo dele uma bússola para o manejo clínico e as manobras do analista. Ao abordar a angústia, ele a situa como uma dimensão que não pode ser eliminada, a partir da qual se pode cernir o lugar e a natureza desse afeto que não engana.

O seminário sobre a angústia é considerado, em diferentes momentos, como o mais bem acabado de seu ensino e um dos mais ricos na articulação entre conceitos e experiência clínica. Ao propor sua invenção — o objeto a, objeto causa do desejo —, Lacan indica que se trata de um objeto que não completa o desejo, mas o causa: um objeto sem substância, que advém de uma falta estrutural. A angústia é índice de algo que se passa entre o sujeito e o objeto, sustentando a formulação de que a angústia não é sem objeto — trata-se de um acontecimento do real.

O afeto da angústia irrompe diante de uma ruptura de significação. Trata-se de uma experiência de destituição subjetiva, na qual aquele que a vivencia se encontra, repentinamente, na posição de objeto, à mercê do Outro. Não há análise sem angústia: ela não é sinal de uma falta, mas de algo que deve ser concebido em um nível duplicado — a falta de apoio dada pela própria falta.

Neste estudo, Lacan recorre a mitos, peças teatrais e à literatura para extrair conceitos fundamentais à clínica, abordando o trabalho de luto, o estranho familiar e a angústia de castração.

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