Resumo: Nas Conferências Introdutórias à Psicanálise, Freud advertiu que a psicanálise provoca aversão na sociedade ao incidir sobre duas concepções firmemente estabelecidas: 1) ao declarar que os processos psíquicos são inconscientes, e que apenas uma ínfima parcela da vida psíquica atinge a consciência, a psicanálise contradiz a psicologia, que equipara psiquismo e consciência; 2) ao postular que impulsos instituais de ordem sexual desempenham papel fundamental não apenas nas doenças nervosas, mas também nas importantes realizações culturais da humanidade, a psicanálise refuta o limite moral que restringe sexual à sexualidade, ampliando consideravelmente aquele conceito. Este artigo pretende tecer algumas considerações sobre esta aversão a partir daquilo que, do cientista, aparece no discurso científico.
Palavras-chave: psicanálise; ciência; inconsciente; sexualidade.
Introdução
Desde o início, a relação entre psicanálise e ciência tem promovido debates acirrados; a maioria deles mobilizado pela necessidade de denunciar uma oposição entre elas. Os partidários dessas discussões advogam que o arcabouço teórico e conceitual da psicanálise não pode ser refutado empiricamente, e que ela não possui evidências cientificas que demonstrem eficácia como prática clínica. Concluem que a psicanálise é uma pseudociência e não deve ser levada a sério.
Freud nunca se furtou a esta discussão. Enquanto neurologista, produziu importantes trabalhos sobre afasia e paralisia cerebral infantil simultaneamente com a ciência da época. Inicialmente, engendrou uma descrição anatômica do cérebro, seu funcionamento fisiológico e possíveis anormalidades para salientar a função do sistema nervoso central nos sentimentos e comportamentos humanos. Posteriormente, influenciado pela física clássica, discorreu sobre a energia da mente (Q) a partir da lei de Newton; pela teoria dos neurônios, apresentou processos psíquicos como estados quantitativamente determinados por partículas materiais (N). Durante a primeira metade da década de 1890, Freud desenvolveu uma concepção fisiológica detalhada da mente. Suas ideias podem ser encontradas em cartas emanuscritos datados de 1895, mesmo ano em que escreveu o que foi publicado postumamente sob o título “Projeto para uma psicologia científica”. O “Projeto” pode ser definido como uma forma de pensar a psicologia como uma neuropsicologia do mental, baseando-a nos estudos de física e química. Aos poucos Freud foi se distanciando desta perspectiva científica e aproximando a psicanálise da ciência natural. Esse deslocamento pode ser constatado por mudanças significativas no uso de termos – cérebro foi substituído por aparato psíquico, por exemplo – e por uma referência cada vez menor a localizações anatômicas.
Entre 1915 e 1917, Freud proferiu uma série de Conferências Introdutórias à Psicanálise, na Universidade de Viena. Diante de um público de médicos e leigos, apresentou um apanhado geral das doutrinas fundamentais, reafirmando, com insistência, que a psicanálise é uma ciência, mesmo que ainda jovem. Sua obstinação respondia aos ataques que sofria dos meios científicos: há uma “revolta geral contra a nossa ciência, a ausência de toda e qualquer civilidade acadêmica e o fato de a oposição desfazer-se de todos os freios da lógica parcial” (Freud, 1916-1917/2014, p. 381).
Por que a psicanálise mobiliza tantos afetos contrários? Qual é o interesse da ciência em destituir a psicanálise de seu campo? O que os cientistas pretendem ao categorizar a psicanálise como uma pseudociência?
O rei deposto
Uma das explicações freudianas para tantos ataques à psicanálise decorre do fato de a humanidade ter sido golpeada pela ciência em sua imaginária onipotência, causando feridas narcísicas difíceis de suportar (Freud, 1916-1917/2014, p. 381). No século XVI, o astrônomo polonês, Nicolau Copérnico, desenvolveu a Teoria Heliocêntrica do Sistema Solar, destituindo a Terra do centro do universo. No século XIX, Charles Darwin, biólogo britânico, remeteu a descendência dos homens ao reino animal e apontou o caráter irredutível de sua natureza animalesca. O terceiro e mais sensível golpe à estima humana chegou logo depois, pelas mãos da psicanálise.
Ao afirmar que o Eu “não é nem mesmo senhor de sua própria casa”, Freud (1916-1917/2014, p. 381) realizou uma verdadeira torção no paradigma psicológico da época. A consciência foi reduzida a meros atos isolados, uma ínfima parcela dos processos psíquicos inconscientes. O caráter inconsciente destes processos, os mecanismos especiais a que eles obedecem e as forças instintuais que neles se manifestam, anularam a equivalência entre psíquico e consciência e inauguraram uma nova orientação no mundo e na ciência.
Freud já havia dito que a comunidade científica fazia oposição à psicanálise, a considerava obscurantista. No entanto, a transmissão freudiana não se limitava apenas a ela, mas também ao público leigo que fazia parte de sua plateia nestas Conferências. Para demonstrar a existência do inconsciente, ele propôs investigar diversos tipos de lapsos, bastante frequentes na vida cotidiana, que podem ser observados em todas as pessoas. Lapsos verbal, de leitura, audição e memória foram definidos um a um e incluídos, junto aos extravios, perdas e equívocos no conjunto de fenômenos nomeados atos falhos.
Estes pequenos indícios, muitas vezes considerados equívocos insignificantes pelo senso comum, são considerados, pela psicanálise, atos psíquicos dotados de sentido, que guardam íntima relação com as vivências das pessoas que os experimentam. Eles se formam pela interferência mútua de duas intenções distintas que, em sua execução, visam uma rechaçar a outra, impedindo sua expressão. No entanto, nenhuma das duas triunfa ou malogra totalmente; ao contrário, conciliam-se em uma solução de compromisso em que servem, ora como representação de desejos sexuais, ora como defesa contra eles.
A investigação dos processos psíquicos inconscientes levou Freud à vida sexual dos pacientes, especificamente, à constatação de que “essas pessoas adoecem por algum tipo de frustração, quando a realidade as priva da satisfação de seus desejos sexuais” (Freud, 1916-1917/2014, p. 399). Como a psicanálise avança com essa discussão?
A sexualidade não se limita ao sexual
A psicanálise constata que impulsos instituais de ordem sexual – no sentido mais restrito e no mais amplo do termo – desempenham papel fundamental nas doenças nervosas. A relação entre sexual e adoecimento nervoso remonta a épocas distantes, quando a humanidade era assolada por perigos naturais capazes de ameaçar sua sobrevivência. Em nome de uma pretensa garantia, ela aprendeu a se proteger formando pequenos grupos que, para manter coesão, exigiam uma série de renúncias individuais em prol da manutenção do coletivo.
A maior parte dessas renúncias recai sobre os impulsos sexuais, inibidos de sua plena satisfação através do mecanismo de recalcamento e do processo de sublimação. O recalque resulta do longo processo de educação imposto às crianças e desempenha um papel fundamental na formação dos diques psíquicos, tais como o asco, a vergonha e a moralidade. A sublimação desvia as metas sexuais desses impulsos para realizações consideradas socialmente mais elevadas, tais como as criações artísticas. Todavia, tanto o recalcamento quanto a sublimação não fornecem aos impulsos sexuais um destino satisfatório; eles insistem em se satisfazer. A precariedade dessas soluções ameaça a sociedade como um todo, que, para defender sua pretensa unidade, desmente a força de tais impulsos e a importância do sexual na vida humana.
Ao iluminar exatamente aquilo que a sociedade nega existir em força e importância, a psicanálise mobiliza revolta, oposição e repudio da seguinte forma: “A sociedade, portanto, transforma o desagradável em incorreto, contesta as verdades da psicanálise com argumentos lógicos e factuais, mas oriundos de fontes afetivas, e, ante toda e qualquer tentativa de refutação, apega-se a críticas que são preconcepções” (Freud, 1916-1917/2014, p. 30-31). Afinal, a ciência ou os cientistas?
À guisa de conclusão
Constituem objeto de exame psicanalítico “eventos modestos, descartados pelas demais ciências como demasiado insignificantes – o refugo, por assim dizer, do mundo dos fenômenos” (Freud, 1916-1917/2014, p. 33-34). Fermentada pela escuta do sofrimento das mulheres histéricas, pelas formações do inconsciente, pelo sentido dos sintomas, Freud foi deslocando os atos psíquicos dos fundamentos materiais creditados pela cientificidade da época e constituindo sua própria ciência.
Lacan mostrou que a ciência é a condição da psicanálise, mas que ela ocupa em relação à ciência uma posição êxtima. Por esse motivo, é necessário discutir ainda hoje que tipo de ciência é a psicanálise, quais são as fundamentações que ela exige e os critérios de externalidade que sua teoria pode apresentar, tanto como método clínico quanto como análise de discurso.
No entanto, o que escapa às discussões da militância que brada a psicanálise como uma pseudociência, o que desmascara os afetos ofensivos que recaíam (e ainda recaem) sobre a psicanálise, é a existência do cientista. Freud desmascarou o mais humano por trás da ciência ao nos fazer ver que a dificuldade de aceitação da psicanálise não é pelo que ela destitui cientificamente na sociedade, mas por aquilo que ela ilumina de obscuro do próprio cientista.
Referências Bibliográficas:
– Freud, Sigmund. (1916-1917/2014). Obras completas, volume 13: conferências introdutórias à psicanálise. São Paulo: Companhia das Letras.
– Iannini, Gilson. (2024). Freud no século XXI: volume I: o que é a psicanálise? Belo Horizonte: Autêntica.
Texto escrito por: Angélica Cantarella Tironi (Diretora de Gradiva)