A contradição de ser desejo

Aloisio Andrade Oliveira

17/06/2026 | Revista 2026
A contradição de ser desejo

A inteligência é sempre bem-humorada. Então, quando, em The Years, narrando as transformações contra culturais dos anos 1960, Annie Ernaux escreve que “no exato momento em que passou a ser obrigatório ter orgasmos de todas as maneiras, a liberdade sexual se tornou impraticável”, aponta com inteligência bem-humorada para o paradoxo que envolve o gozo — o gozo físico e o do inconsciente. Gozamos sofrivelmente; sofremos gozosamente. E eis aí o grande lance do gozo: ele pode existir para que jamais atinjamos qualquer ínfima parcela de plenitude. Afinal, se essa totalidade existisse, não haveria mais desejo. Portanto, ao nos colocar sempre em falta, o desejo — e as fantasias que a ele competem — nos direciona a repetir os mesmos sintomas de sempre, distanciando-nos da porta de saída, da luz do fim do túnel neurótico, da tranquilidade, da cabeça em estado de quietude.

Procuramos entender o gozo não apenas como descarga pulsional, mas também como motor das atribulações psíquicas do neurótico. E sabemos que o neurótico tem como estampa preferida de camiseta o inabalável “e se?”. E se eu me obrigasse a ser livre? Teria a força para sustentar todo o meu desejo e abandonar aquilo que me amarra aos meus tão queridos sintomas? E se eu continuar sustentando meus sintomas, admitindo que sou pré-determinado por eles, e simplesmente abaixar a cabeça e aceitar? E se não for uma coisa nem outra e, como legítimo neurótico, eu me rebelasse contra mim mesmo, contra todos os sintomas que estão em sintonia com meu ideal de eu, mas, ao mesmo tempo, entendesse que, sendo eles as vigas sustentatórias de minha identidade, deixasse tudo como está para continuar sendo…? O neurótico vai por aí se divertindo e sofrendo com esses “e se” infinitos: o histérico, com o “e se” repleto de desejo insatisfeito; o obsessivo, com todas as respostas para perguntas jamais feitas.

Adam Phillips, em Monogamy, faz a seguinte redução generalizadora — e também provocativa: “Há sempre alguém que me amaria mais, me compreenderia melhor, me levaria a sentir-me sexualmente mais desperto(a). Essa é a melhor justificativa que temos para a monogamia — e para a infidelidade.” O “e se…” justaposto a “…eu não for tão amado(a) como desejaria” encontra-se com o paradoxo fatal do humano: o movimento do desejo impulsiona a busca por cada vez mais falta, numa sede de completude impossível. E Elena Ferrante avisa, em The Lost Daughter: “Uma criança nunca quer somente aquilo que pede; pelo contrário, um pedido insatisfeito torna ainda mais insuportável a falta não confessada”. Arrastados, então, por essa conjugalidade entre desejo e falta, talvez prefiramos assumir uma ilusão acentuada pelo individualismo contemporâneo: a de que não precisamos do Outro. Ao invés de permanecermos como seres comunitários, tornamo-nos sujeitos em comunidades fragmentárias, compartilhando tudo por redes ilusórias, com distância segura o suficiente para não sermos afetados pelo afeto alheio. Contudo, seguimos contrariados quando não atingimos ou afetamos o Outro, porque aparecer para o Outro, e ser amado pelo Outro, invejado e querido pelo Outro-mais-além, é tudo de que precisaríamos para chegar a essa tal plenitude — e assim nos lembrarmos de onde viemos: do amor devotado pelos nossos cuidadores, lá no inicinho de tudo.

A psicanálise, longe de oferecer remédio para o paradoxo do gozo sofrível e do sofrer gozoso, adora-o. Na clínica, essas contradições fazem o analisando pegar a si mesmo no contrapé e na rasteira, na contramão do desejo, que é quando o desejo se revela no absurdo e no inconfessável. Bruxos da linguagem, com caldeirões borbulhantes de significantes, os psicanalistas habitam as veredas da resistência do grande sertão do processo analítico. E lembremos que as bruxas e os bruxos continuam sendo fascinantes — mas a bruxaria pode assustar. Basta interrogar um sujeito, diretamente ou por metáforas, sobre o que ele acha que o aparelho psíquico busca primariamente: a sensação constante de prazer ou a diminuição do desprazer? A primeira resposta, a da busca pelo prazer, contraria a síntese freudiana, que coloca o sujeito na contramão da egolatria contemporânea: o aparelho psíquico quer se livrar dessa tonelada de estímulos que causam excitação inquietante e desconforto. O prazer vem justamente de se livrar desses estímulos desprazerosos; mais um paradoxo piscando o olho para nós. Esse lance da busca do prazer vendido na publicidade é só isso mesmo: propaganda de Coca-Cola. E que grande desafio, na busca auxiliada pela análise, alcançar o próprio gozo como a descarga de uma tensão que, na verdade, não alivia nada e, ao contrário, só traz mais e mais desconforto para o sujeito. Achamos que o prazer sacia, quando, na verdade, ele só nos aponta a indiferença do universo e nos mostra esse buraco enorme chamado “falta”, que tanto nos move para o desejo. E as contradições se fazem como um dos principais meios de o analisando se deparar com o próprio inconsciente. O caldeirão de bruxas e bruxos ferve e borbulha, enquanto isso.

Texto escrito por Aloisio Andrade Oliveira (praticante e aluno em Gradiva)