Áudio da conversa com o Pastor Henrique Vieira
Tivemos a alegria de receber, para esta entrevista, o deputado e pastor Henrique Vieira. Partimos do desejo de ouvi-lo sobre o crescimento da população evangélica na política brasileira e os possíveis impactos desse movimento na moral sexual da sociedade.
Ao longo da conversa, destacou-se a importante diferença entre as diversas expressões do cristianismo e o fundamentalismo religioso, distinção essencial para um olhar mais sensível e menos simplificador sobre o tema. Agradecemos, com carinho, a generosidade do pastor e deputado em compartilhar conosco sua escuta, sua experiência e suas reflexões. Agora, convidamos você a se deixar tocar pela beleza das palavras do pastor Henrique.
1 – Revista: A primeira pergunta é sobre o crescimento da população evangélica dentro da política, não só o crescimento da população evangélica no país como um todo, mas também dentro da política. Como você vê isso? Quais são os efeitos desse crescimento na moral do povo brasileiro? Se existe um crescimento da população evangélica na política, também existe uma narrativa, um discurso sendo propagado com base em uma moralidade religiosa cristã. Então, quais efeitos você vê, na prática, desses discursos na população?
Pastor Henrique: Então, não existe, digamos assim, uma experiência evangélica que seja única. O campo evangélico é altamente diverso. Se você faz uma linha histórica e chega ao protestantismo do século XVI, ele sempre foi diverso: diferentes interpretações da Bíblia, diferentes denominações. E não só do ponto de vista histórico, mas também na atualidade, é uma experiência muito diversa. Mas dá para dizer que há uma predominância de um cristianismo mais conservador, porque o próprio cristianismo carrega cristianismos. Ou seja, sempre fujo das perspectivas totalizantes, mas há um crescimento evangélico no Brasil. O campo evangélico é diverso, majoritariamente popular, mas dá para dizer que há uma predominância de uma moralidade conservadora.
Na política institucional, isso tem se traduzido em algo para além do próprio conservadorismo. Porque valores conservadores organizam a vida da pessoa, sua família, sua igreja, a partir desses valores — e a vida que segue. A questão é que isso está se traduzindo em um projeto de poder, em um projeto de uma moral religiosa que se pretende única ou superior, universal, que, portanto, por meio da lei, da legislação e das políticas públicas, deve se sobrepor à sociedade. Então, o efeito é que o crescimento dessa perspectiva evangélica na política tem fortalecido uma agenda ultraconservadora. Acho que esse é o principal efeito: o fortalecimento de uma agenda ultraconservadora em termos morais e comportamentais, que olha para o país como um alvo, como um campo a ser dominado. Isso é extremamente perigoso, mas, óbvio, eu insisto: não dá para generalizar.
2 – Revista: Podemos pensar que esse crescimento da população evangélica dentro da política vem também como uma resposta aos avanços das lutas identitárias. Quanto mais essas lutas avançaram, mais esse discurso, que tem um teor conservador, foi ganhando força, talvez em uma tentativa de fazer barreira a esses avanços. Como você vê isso? Como se colocar como pastor evangélico progressista diante dessa situação?
Pastor Henrique: É isso. Acho que existe uma reação de um campo conservador diante do avanço das pautas relacionadas aos direitos das mulheres, dos negros, dos LGBTs e dos povos originários. Só que eu não faço uma relação direta entre campo evangélico e conservadorismo. Meu medo é a gente achar que a moralidade conservadora é algo exclusivo desse campo evangélico, ou que o tal campo evangélico é o obstáculo, quase que o único obstáculo, a uma agenda mais progressista, ou que há uma oposição do campo evangélico a uma agenda progressista. Porque, se assim for, é como se nós estivéssemos tratando como sinônimos “evangélicos” e “conservadores”, e é disso que eu estou tentando fugir. Então, dentro da tradição evangélica, embora não seja uma perspectiva predominante ou majoritária, há dimensão progressista: há teologia negra, há teologia feminista, há ecoteologia. Você não consegue pensar, por exemplo, nos Estados Unidos, a luta pelos direitos civis sem o gospel, sem as igrejas. E, no próprio Brasil, há também uma vertente progressista dentro do campo evangélico. Ou, dentro do conservadorismo, há camadas de conservadorismo, ou seja, é um pouco mais plural e complexo.
Mas, no geral, eu colocaria que a extrema direita reage ao avanço de uma agenda mais progressista nas últimas décadas, e que existe uma experiência evangélica no Brasil, majoritária, isso há de ser reconhecido, que é orgânica da extrema direita. Há uma relação direta entre fundamentalismo religioso cristão e extrema direita no Brasil e nos Estados Unidos, por exemplo. Esse fundamentalismo, que é parte orgânica dessa extrema direita, reage, sim, ao avanço da luta por uma agenda mais progressista e
democrática. Eu me reivindico um discípulo de Jesus Cristo de Nazaré, filho e fruto da teologia negra e da teologia da libertação. Então, eu me sinto, assim, um peixe fora d’água, estranho, quando olho para esse campo evangélico poderoso, midiático, empresarial. Mas eu tenho a minha tradição, eu tenho meu time, eu tenho meu grupo, eu tenho a minha trajetória, eu tenho os meus ancestrais. Então, eu estou bebendo nas fontes da teologia progressista evangélica, da tradição de Luther King, um pastor batista. Eu me sinto, assim, por um lado, angustiado por ver um fundamentalismo evangélico crescente, mas, por outro, não solitário ou isolado, porque sei que, dentro desse campo evangélico, tem o meu time, ou o time do qual eu faço parte, a tradição na qual eu me inspiro para pensar a minha fé e a sociedade. Porque aí é o cristianismo da libertação: dos pobres, dos oprimidos, do engajamento com a justiça e a emancipação do povo, e por aí vai.
3 – Revista: A última pergunta é sobre a diferença entre a psicanálise e a religião cristã evangélica. Podemos pensar que essas duas vertentes lidam com o desamparo, sendo formas de tratar o desamparo da existência humana. Fazemos essa pergunta porque temos observado pastores que estão se formando como psicanalistas e unindo essas duas vertentes, utilizando diagnósticos como a histeria como possessão, a homossexualidade como pecado e a chamada “cura gay”, classificações que não existem dentro da psicanálise. Nessa psicanálise, digamos, “adaptada”, esses pastores podem estar difundindo uma moral que não está de acordo com a ética da psicanálise. Como você vê essa questão?
Pastor Henrique: Pois é, acho que, de novo, há o mesmo pressuposto. Eu não sei se existe “a religião evangélica”; existe essa categoria histórico-sociológica, “evangélicos”, dentro de um guarda-chuva mais amplo que é a religião cristianismo. E, dentro dessa categoria histórico-sociológica, “evangélicos”, há vertentes. Mas estamos nos referindo ao fundamentalismo cristão dentro do campo evangélico. Não são medidas comparativas: psicanálise e uma categoria religiosa. Mas eu diria que o fundamentalismo tende a não reconhecer o desamparo. Não sei se o termo é recalcar, represar o desamparo, isso me parece perigoso, porque são respostas prontas, prévias, absolutas; é o dogma, aquela verdade petrificada, inquestionável. Então, isso gera recalque; isso gera, na minha opinião, vários problemas de culpa, de não acolhimento, de não respeito à singularidade das pessoas e à diversidade humana. Eu penso no fundamentalismo como algo que reprime e não reconhece o desamparo, e, a partir disso, vêm vários problemas emocionais e de saúde mental, na minha opinião, porque não dá conta da vida, dos dilemas, das angústias ou da diversidade. Você tem uma verdade que se pretende e se reivindica pronta, prévia, atemporal, universal, inquestionável, e as pessoas têm que se formatar.
Então, seja no campo do gênero, da sexualidade, do comportamento ou das crenças, a pessoa tem que ir reprimindo para se adequar. Isso gera uma penitência eterna, uma culpa sem fim, uma espécie de dissimulação permanente, “dissimulação” nem no sentido moral pejorativo, mas dissimular para se adequar. Enquanto isso, eu acho que a psicanálise conversa com o desamparo, acolhe o desamparo, reconhece o desamparo quase como algo constitutivo da experiência humana. E, então, você pode, em vez de represar ou reprimir, elaborar e produzir sentidos, significados.