Nossa convidada especial desta segunda edição da Entrevista Preliminar é a psicanalista Carolina Cancela, uma das criadoras da Revista Gradiva. Carolina nos concede a oportunidade de conversar sobre o seu livro “Psicanálise da fé: religião e controle moral”. Seu trabalho se destaca pela interlocução entre psicanálise, religião e política. Em seu estudo, a autora elucida o crescimento da população evangélica dentro da política e o impacto disso na moral sexual do povo brasileiro.
Com vocês, Carolina:
1 – Revista: O que te levou a escrever esse livro? Partiu mais de uma inquietação clínica, teórica ou pessoal?
Carolina: Este livro nasce como um desdobramento da minha pesquisa de mestrado. O desejo de realizá-la surgiu a partir de uma viagem à Índia, uma experiência que me atravessou de maneira profunda e singular. Ali, fui tocada pela cultura de um modo que ultrapassou o olhar: foi algo vivido no corpo, na escuta e na presença. Como mulher, presenciei e participei de situações únicas, em que cultura e religião se entrelaçam de forma indissociável. Na Índia, religião e política não caminham separadamente, elas se misturam, se tensionam e produzem modos de vida, crenças e comportamentos.
Retornei ao Brasil ainda atravessada por essa vivência. O que mais me mobilizava era pensar a relação entre religião e política e os efeitos dessa articulação na construção moral de um povo. Ao compartilhar essas inquietações com minha orientadora e psicanalista, Heloisa Caldas, fui incentivada a deslocar essa reflexão para o contexto brasileiro, que, naquele momento, vivia intensamente a presença de narrativas religiosas no campo político e eleitoral.
Este trabalho também ecoa experiências da minha vida íntima e pessoal, atravessamentos que, de alguma forma, encontraram lugar e elaboração nesta escrita.
2 – Revista: A psicanálise se funda na experiência da falta, enquanto a religião costuma se organizar em torno da promessa de completude e de sentido. Ainda assim, ambas parecem responder a uma mesma experiência humana: o desamparo. O que te levou a querer colocar essas duas dimensões, fé e inconsciente, em diálogo? Há um ponto em que elas se cruzam?
Carolina: Posso dizer, de início, que tanto a religião quanto a psicanálise são perspectivas que lidam com o desamparo. No texto “Totem e Tabu”, Freud aborda diferentes formas de saber para tratar essa condição: a ciência, a religião e a arte.
A partir desse ponto de vista, proponho colocar em diálogo essas duas dimensões. Elas se cruzam? Sim, na medida em que representam diferentes formas de lidar com a falta. No entanto, é importante destacar a diferença radical entre elas. Enquanto a religião busca produzir sentido para a vida, orientar-se por dogmas e sustentar a promessa de vida eterna, a psicanálise se ocupa de sustentar a falta e propõe extrair do sujeito sua singularidade.
No livro, levanto justamente a questão de pastores evangélicos que vêm se formando como psicanalistas e articulando essas duas dimensões. Qual seria, então, esse ponto de encontro? Durante a pesquisa, fui reunindo diagnósticos e direções de tratamento feitos por esses pastores, que não correspondem à ética da psicanálise, mas que, ao contrário, reforçam uma moralidade conservadora e, muitas vezes, é importante dizer, vinculada a correntes fanáticas da religião evangélica. Uma das passagens que mais me encanta no livro é a que reúne as cartas trocadas entre Freud e seu amigo, o pastor Oscar Pfister. Trata-se de correspondências marcadas por amizade, respeito e abertura ao diálogo. Ao longo de anos, eles conversam justamente sobre um tema delicado: as tensões e divergências entre a religião e a psicanálise. Ao refletir sobre o risco de uma transferência sem limites na relação com um pastor, Freud escreve:
“A análise não se satisfaz com um resultado de sugestão, mas investiga a origem e a legitimidade da transferência. Não sei se o senhor percebeu a ligação secreta entre Análise e Ilusão. Na primeira, quero proteger a análise dos médicos; na segunda, dos sacerdotes. Quero confiá-la a uma categoria de curadores de alma seculares, que não precisam ser médicos nem podem ser sacerdotes”.
3 – Revista: Vivemos em um tempo em que o discurso religioso ocupa o espaço político de maneira cada vez mais intensa. Que leitura a psicanálise pode fazer dessa presença da fé no poder?
Carolina: Essa pergunta orientou toda a minha pesquisa. De um lado, observa-se o crescimento vertiginoso da população evangélica no Brasil, de outro, a expansão significativa de sua presença na esfera política. Parti de dados do IBGE e de estudos acadêmicos para compreender, no interior desse fenômeno, a relação entre desamparo e religião. Nesse percurso, tornou-se evidente que, enquanto o Estado falha e desampara, muitas igrejas passam a oferecer uma assistência direta e contínua aos mais
necessitados. Soma-se a isso o movimento de fiéis que migram da religião católica para a evangélica, em parte atraídos pela ênfase que esta confere aos preceitos morais.
No curso da pesquisa, encontrei também o testemunho de um ex-evangélico que explicita um projeto de poder sustentado por vertentes mais radicais desse campo religioso. Tal projeto se apoia na interpretação de um versículo bíblico segundo o qual, para alcançar a “terra prometida”, seria necessário conquistar determinados territórios na vida social. Esses territórios incluiriam o entretenimento, a educação, a família, a ciência, a mídia, economia e a política. À luz do cenário atual, é possível reconhecer sinais de que essa estratégia tem alcançado resultados expressivos.
O que me interessa, sobretudo, é sustentar uma análise de caráter laico, atenta aos limites que esses discursos religiosos vêm ultrapassando ao buscar difundir uma moral sexual, de matriz vitoriana, já amplamente criticada por Freud.