Diante do terrível acontecimento que é o feminicídio, de que forma a psicanálise pode contribuir? Na tentativa de responder por que mulheres, desde a época da Inquisição, são mortas pelo fato de terem nascido mulheres, faremos um recuo histórico, tanto no campo da teoria psicanalítica quanto no da estruturação dos laços sociais e de suas transformações.
Neste módulo, investigaremos o desacordo entre o desejo e o discurso de homens e mulheres na contemporaneidade. A partir de uma perspectiva psicanalítica, examinaremos as transformações das subjetividades que conduziram ao deslizamento do laço conjugal, característico da modernidade, para formas de exílio subjetivo frequentemente observadas na atualidade.
A psicanálise inscreve-se no campo social a partir das décadas de 1950 e 1960. A igualdade de direitos entre os sexos tornou-se uma das principais bandeiras do feminismo. Nesse contexto, a família patriarcal, organizada sob um eixo vertical, passou por um processo de horizontalização — mudança que desestabilizou os referenciais que definiam os papéis de homens e mulheres no casal, configurando novas formas de subjetivação.
Na medida em que as mulheres se emanciparam, libertando-se da submissão imposta pela autoridade masculina, a hipótese considerada é a de que os homens passaram a se sentir ameaçados por elas. Conceitos psicanalíticos como feminino, feminilidade, sexualidade feminina, sexualidade masculina, diferença sexual, gozo fálico e gozo Outro orientarão a investigação.
Busca-se, assim, compreender se o mal-estar nas parcerias amorosas, na contemporaneidade, passou a ser marcado pelas tonalidades do impossível e da violência. Em suma, estudaremos por que as mulheres podem ser concebidas como um “território estrangeiro”, diante do qual alguns homens se sentem ameaçados e se recusam a aprender um novo alfabeto (RECALCATI, 2016).