A questão sobre o Pai atravessa pontos cruciais da teoria psicanalítica articulados por Freud, desde Totem e Tabu à Moisés e o monoteísmo. Do pai sedutor da histérica ao pai de “Bate-se numa criança”, Freud faz um enorme avanço ao afirmar a preeminência do Pai como um operador na constituição da realidade psíquica. Frente as versões do pai como operador da lei, um longo caminho foi percorrido. Freud também se viu às voltas com seu próprio pai, no texto, “Um distúrbio de memória na Acrópole”, em que relata encontrar-se desanimado com a viagem a Grécia, e ao chegar, surpreende-se com o pensamento que questionava a existência da Acrópole e a culpa de ter realizado mais que o próprio pai realizou, como se fosse ainda proibido ultrapassar o pai.
Se em Totem e Tabu, Freud aborda o nascimento da Lei e a origem da civilização, a partir do complexo de Édipo, ele extrai da tragédia de Sófocles que somos habitados por um saber sem sujeito que nos impulsiona a passagens ao ato violentas. Édipo e Totem pressupõem a internalização da Lei do pai, Lei que interdita parcialmente os filhos ao acesso a um gozo incestuoso e sem limites. Assim, Freud afirma que o neurótico carrega consigo sentimentos ambivalentes de amor e ódio àqueles que representam a autoridade paterna.
Mas é com Lacan que o Pai como referente lógico, ganha outro estatuto, pela via do significante Nome do Pai, da metáfora paterna, e na pluralização dos Nomes do Pai. O pai como função lógica está desatrelado dos efeitos imaginários que visam a personificação. Como operador da Lei simbólica articula o desejo à Lei, portanto, é nome que separa deixando um resto que se tornará corpo íntimo, o objeto a, ligando um nome ao vazio.
Na formulação da metáfora paterna, Lacan inscreve o Nome do pai no lugar do Outro, cujo produto é a significação fálica, permitindo ao sujeito ter uma vida sexual, inscrever-se na partilha dos sexos, identificar-se e sintomatizar. Mas é no estatuto do gozo que Lacan avança para além do Édipo reinterpretando-o pelo registro do Real.
O Pai é uma função que se refere ao real, não é uma norma, e sim ato que tem consequências. Na vertente contemporânea essa função apresenta-se desvanecida pela “pacificação da paternidade” sustentada na lógica de que é possível prescindir do Pai, sem servir-se dele. Lacan aborda a evaporação do pai e o desvanecimento do simbólico a partir das exigências do supereu na circulação do gozo fluido, sem barra, empuxo ao gozo no hedonismo contemporâneo.
Bibliografias:
Lacan, Jacques. (1957-1958). O seminário, livro 5: as formações do inconsciente. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999.
Lacan, Jacques. (1963). “Introdução aos Nomes-do-Pai”. Em: Nomes-do-Pai. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005.
Lacan, Jacques. (1969). “Nota sobre a criança”. Em: Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003.
Lacan, Jacques. (1968). “Nota sobre o pai”. Em: Opção Lacaniana – Revista Brasileira Internacional de Psicanálise, nº 71. Rio de Janeiro. São Paulo, Edições Eolia, nov. 2015.
Lacan, Jacques. (1974). “Prefácio a O despertar da primavera”. Em: Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003.
Laurent, Eric. (2007). A Sociedade do Sintoma. Rio de Janeiro: Contracapa.