O pagamento na Clínica Psicanalítica

Andrea Tavares

17/06/2026 | Revista 2026
O pagamento na Clínica Psicanalítica

Início minha fala a partir de um desdobramento do nosso título: o que se paga na análise?

E, para percorrermos essa trilha, recorro ao texto “A direção da cura e os princípios de seu poder”, no qual Lacan, de saída, coloca o analista na berlinda. Ele vai introduzir alguns elementos fundamentais que são vetores na direção do tratamento. Sim, há uma direção na condução das análises! Nesse texto, Lacan afirma que o analista também precisa pagar: pagar com as palavras; com sua pessoa, quando a empresta como suporte aos fenômenos singulares da transferência; e pagar também com seu ser, ao operar na função de analista, cuja ética sustenta-se na política da falta-a-ser.

Mas o que é a política da falta-a-ser?

A “política da falta-a-ser” refere-se à posição do analista diante da falta que é inerente ao sujeito e ao desejo. Sujeito de desejo! Sujeito ao inconsciente! Não se trata de preencher a falta, mas de reconhecê-la, consentindo no trabalho de acessá-la como motor do processo analítico. O analista, nessa perspectiva, não é aquele que detém a verdade ou a completude, mas aquele que se situa na falta-a-ser, cerne do desejo do analista, que é bem diferente do desejo de ser analista. Operar a partir do desejo do analista é o que se encontra na base da ética da psicanálise, pois é correlato à função do analista em sua clínica.

O desejo do analista está em posição oposta ao desejo de ser analista, pois consistir no Ser relaciona-se com a demanda de amor e reconhecimento. O desejo do analista, por estar articulado à causa, ao objeto enquanto causa de desejo, não é articulável à demanda. O desejo do analista não se sustenta em nada: é o lugar de um vazio que o analista oferece ao analisando. E, para tal articulação, há necessariamente pagamento, tal como Lacan aponta em “A direção da cura”. O pagamento do analista, no autorizar-se à função analítica, passa necessariamente por sua própria análise.

Para a psicanálise, o que se paga em análise perpassa tanto a posição do analista quanto a do analisando; no entanto, analista e analisando estão em posições dissimétricas, não ocupam o mesmo lugar. Embora todos tenham que se haver com um pagamento, não há paridade entre os lugares, pois são posições dissimétricas que não se complementam.

Podemos afirmar que não há análise sem pagamento; no entanto, o “pagamento” precisa estar ligado a uma perda, a um corte. A dimensão do que se paga em análise está atrelada à dimensão da perda, ou seja, do que podemos também nomear de castração. Em análise, perdemos os pontos de identificação ligados aos ideais, perdemos o lugar de falo no qual o sujeito se oferece ao Outro; ou seja, em última instância, a direção da cura é vetor de perda de gozo. O pagamento de que se trata está sempre ligado à dimensão da perda de gozo, daquilo que é mais difícil de manejar na clínica.

Sabemos que os efeitos terapêuticos numa análise vêm a reboque daquilo que efetivamente o sujeito consente em deixar cair. Freud, quando faz referência ao lucro — portanto, ao ganho —, faz menção ao ganho secundário da doença, ou do sintoma: ao modo como o sintoma articula-se, por um lado, a um sofrimento e, por outro, traz uma satisfação embutida no padecer. O lucro, ou ganho secundário, é o que alimenta neuroticamente o sintoma e engorda o sentido, engessando o sujeito.

Sabemos que a lógica contemporânea vigente visa ao que vai na contramão da direção da psicanálise: gozar a qualquer preço, a qualquer custo, sem o consentimento na perda de gozo, sem o balizamento do limite que a castração impõe. Trata-se de uma lógica que abole a diferença, recusando ao sujeito o lugar da falta e impondo uma verdade que sirva para todos. Lacan faz um importante alerta aos analistas, para que estejam “avisados” quanto aos rumos da subjetividade do nosso tempo, para que possam “ler”, a partir dos sintomas, as exigências contemporâneas que engrossam a vertente dos acting outs.

Vamos avançar e comentar o pagamento relativo ao dinheiro. É importante dizer que esse pagamento, em análise, não é mera transação de serviço ou transação comercial, porque o pagamento em dinheiro não está desatrelado da via sintomática de como o sujeito se posiciona em seu padecimento. E, do lado do analista, implica a posição ética de renunciar ao mais-de-gozar, pois espera-se que tenha trabalhado seus próprios impasses em relação ao dinheiro em sua própria análise, para que não se confundam com os impasses do analisando. Freud nos alerta que, no manejo do pagamento, é preciso que o analista tenha atravessado seus próprios pudores, sempre ligados ao sexual. Freud atribui ao pagamento em dinheiro uma função reguladora do manejo clínico quando sentimentos ligados à gratidão entram em cena.

E isso já nos coloca na mira da distinção entre preço e valor. Dar um preço e dar valor são coisas distintas, que podem se confundir para os iniciantes quando há certa pressa em estabelecer o contrato, que pode estar tanto do lado do analista quanto do analisando, ou de ambos. Nesse caso, penso que a dimensão do valor tende a ficar atravessada pelo preço.

Pensar o dinheiro como valor implica o deslocamento da relação ao preço, e isso tem relação com a instalação da transferência, da suposição de saber ao Outro e de uma abertura na implicação do sujeito naquilo de que se queixa. Na prática analítica, não podemos tomar o dinheiro numa representação previamente definida, pois cada um traz suas marcas e fantasias ligadas à própria história e à castração. O que importa é que o dinheiro possa estar circunscrito na dimensão significante e escutado a partir desse desdobramento. É nesse âmbito que o dinheiro, como pagamento, também deve ser tomado, ou seja, sujeito a lapsos, esquecimentos e dívidas. O dinheiro, como significante, também nos recorda que há a dimensão da dívida simbólica, impossível de ser paga, dentre os distintos modos de pagamento na análise. Aqui, não se trata do pagamento pela via do “justo”, da negociação do tipo “toma lá, dá cá”.

Quanto custa uma análise?

Talvez não exista uma resposta possível para essa pergunta. Ou podemos reformulá-la: quanto me custa uma análise? Na medida em que o “preço a pagar” é sempre o de cada um. Sempre singular. É importante também fazer a consideração sobre o que tomamos como valor, pois ele não se equivale ao valor monetário, ao valor do dinheiro, mas ao valor referido ao lugar onde a escuta que se espera em uma análise é distinta do senso comum. O que digo ao meu analista não digo em qualquer lugar, nem a qualquer um.

Uma vez, escutei de um supervisor, quando eu também estava iniciando meus atendimentos, às voltas com essas questões, e ele me disse: “Em uma análise, cada um paga o máximo que pode!”. Quanto é o máximo? É impossível estabelecer isso fora da transferência, da escuta analítica, ao tomar cada caso como único. Essa formulação de Freud é de extrema precisão, pois tomar cada caso como único não está alinhado à vertente do individual, mas ao singular de cada um, à posição de gozo que o sujeito desconhece.

Freud vai associar o dinheiro, primariamente, à neurose obsessiva, à analidade; ou seja, ao momento em que a criança percebe que aquilo que ela pode dar ou reter mobiliza o entorno. Segundo Freud, nessa associação, o dinheiro passa a ser o representante, na vida adulta, de uma ilusão de controle. Tem-se a ilusão de controlar pela retenção: dando ou retendo.

Considerar o pagamento como significante é levar em conta que o que se paga está ligado à castração. O pagamento tem um efeito regulador na medida em que faz uma contenção nas demandas de amor e reconhecimento que tendem a atravancar o trabalho analítico.

Em análise, se o que está em causa é o sofrimento a ser tratado frente ao saber sobre o sintoma que o sujeito desconhece, não estamos no âmbito de uma mercadoria a ser trocada pela mediação do dinheiro. Na análise, trata-se de um acordo em que as obrigações não são simétricas. De um lado, está o sujeito que vem com uma queixa, endereçando uma demanda ao Outro, a quem ele supõe saber. Do outro lado, está o analista, que vai ser o suporte da transferência a partir de seu manejo: não respondendo ao que é demandado, não oferecendo soluções nem conselhos.

Bibliografia:

LACAN, Jacques. “A direção do tratamento e os princípios de seu poder” (1958). Em: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998. p. 591-652.

Texto escrito por Andrea Tavares (professora em Gradiva) e apresentado na Aula Aberta “O que fazemos quando fazemos análise”, realizada pelo Instituto Gradiva de Psicanálise em agosto de 2025.