Por que brigar com Anora? – Márcia Infante

17/04/2025

Três figuras femininas encenadas nos filmes Anora, Substância e Ainda estou aqui foram contempladas no Oscar 2025. Das atrizes que as interpretaram – Mikey Madison, Demie Moore e Fernanda Torres – , quem levou o troféu foi a “novinha” Mikey Madison. E as críticas foram categóricas em afirmar que essa vitória se alinhava ao etarismo, preconceito, discriminação ou intolerância baseados na idade. Tema, inclusive, bem explorado no filme Substância.

Fui até Anora e me vi impactada do início ao fim do filme. Sai do cinena atravessada por inúmeras reflexões, sendo a mais pregnante _ Por que brigar com Anora? Mikey Madison, no frescor dos seus 25 anos, dá literalmente corpo a uma mulher sem voz. Linda, sedutora, causa o desejo nos homens que querem consumi-la. O excesso se apresenta desde o início do filme e vai numa escalada sem fim até a devastação. Bingo para pulsão de morte e sua faceta – o gozo.

Anora tira o ar de quem a assiste, pois ela é uma denúncia de um aspecto que habita, em nós, mulheres, e que nem sempre e nem todas o acolhem. Anora nos convoca a dialogar com a demanda de amor de uma mulher. Demanda
que, nos dias de hoje, parece não ter lugar e fica tão amordaçada como a própria personagem em uma cena do filme. Dar voz a essa demanda é tirar as amarras e deslizar de um lugar de puro objeto de desejo do outro. Esse outro,
o macho, violento, arbitrário e manipulador. Essa representação da “mulherzinha” é rechaçada no contemporâneo. Mas quem já não foi ou ainda é Anora?

Quantas mulheres ainda não se submetem a estar com um homem a qualquer preço por medo da solidão e para fugir da saga de que uma mulher sozinha é uma mulher fracassada? Quem não tem um momento Anora no currículo? Ou
seja, ter se iludido com a violência do “ bico doce” de um sedutor? A busca de ser amada habita o âmago da subjetividade de Anora. Aquela mulher, esperta e desejada, descobre por meio da violência e da dor o preço de ser objeto. Ela chora.

Em um escopo não muito distante encontra-se Elisabeth Spakler, personagem interpretada pela atriz Demie Moore, no filme Substância. Desta feita, é o etarismo personalisado na figura de um macho alfa, grosseiro e caricato, que troca uma mulher de 50 anos por uma “novinha”. Essa cena se passa no campo profissional, mas denuncia o quanto o etarismo recai de forma mais incisiva sobre a mulher. Como objeto descartável Elisabeth volta para casa.

O mesmo sistema capitalista, que trata a mulher como um produto a ser sorvido e descartado é o que oferece uma solução. Uma substância regeneradora traz a novinha de volta, embora essa transformação não se dê sem condições. Trava-se uma angustiante luta ao longo do filme entre Elisabeth (Lizz) e seu duplo Sue, a sua versão rejuvenescida.

Elisabeth responde ao descarte da sua condição de sujeito por meio do seu narcisismo que, ferido pela invisibilidade, aposta suas fichas numa inalcançável conquista da eterna juventude. A finitude dos corpos e, consequentemente, da vida, é negada. Essa negação conduz Lizz ao atravessamento da linha do possível e a conduz à morte. É no campo do trágico que essa mulher adentra.

Anora e Lizz não se depararam na vida com uma Eunice Paiva, uma outra representação de mulher. Aquela que faz escolhas e, por isso, renuncia ao gozo pelo gozo. Ela entra no campo do amor. Não o amor piegas e romantizado, que acredita que dois podem fazer um. Não podem. É o amor que vem em suplência do que falta e faz uma costura possível. Eunice é sustentada por laços sólidos e ela torna o trágico belo. Ela é capaz de sublimar. Eunice é a ética encarnada! E ela representa tantas outras Eunices que vivem no anonimato, mas nem por isso menos potentes!

Não brigar com a Anora e com a Elisabeth que nos habitam, e, sim, metabolizá-las nos permite deslizar da posição de quem demanda amor para a de quem pode amar. Em outras palavras, passa-se de uma posição de objeto para uma posição de sujeito, o que vem a inaugurar a via do belo na lida com o real do desamparo e da finitude. Nos resta tirar a mordaça da Anora e quebrar o espelho que congelou em uma única possibilidade a imagem da mulher!

Autora: Márcia Infante
Professora e supervisora de Gradiva