Um véu para a Morte

Paula Braga

17/06/2026 | Revista 2026
Um véu para a Morte

Primeiro, eu queria falar sobre a Morte porque é, sobretudo, dela que se trata. A Morte é uma criatura injustiçada. Nada sobre ela soa prazeroso ou feliz, apesar de que ela consegue, ao menos, conservar um traço do belo. Esse traço está ali, antes de tudo, porque é pela Morte que a vida é viva. Imaginem uma vida sem a Morte: que tédio infinito!

Não, sem a Morte, a vida seria morta. Viver exige morrer. Isso me lembra a série The Good Place, em que o paraíso é tão infinitamente maravilhoso que ninguém aguenta mais. Até no paraíso se pede para sucumbir à inexistência e, sabendo que essa possibilidade existe, o caminho até lá se torna muito mais valioso. Por isso, a Morte é essa criatura renegada, mas imperadora da vida. Verdade seja dita: a Morte sem a Vida também não seria nada. Parece que elas sustentam esse balanço, necessário à nossa existência nonsense.

Eu vejo a Morte no vão do elevador. Eu a vejo no potencial de uma queda alta ou em lugares sem saída. Meus vizinhos nada sabem sobre isso; só percebem meu vai e vem pelas escadas. Um dia, uma vizinha perguntou o motivo. Expliquei que tenho medo do elevador, ao que ela respondeu, transtornada, que sou de uma “geraçãozinha frágil”. Sim, sou frágil diante da Morte. É ela ali, à espreita no elevador. Não consigo estar na presença dela.

Coitada da Morte, deve ser tão solitário… ninguém nunca pode olhar de frente para seus olhos. Ela é como Medusa: sem um espelho, não se pode olhar. Qual véu posso usar para lidar com a Morte, que não o espelho de Medusa?

Até uns 25 anos, eu andava de elevador. Eu acho que a Morte criou Deus, da mesma forma que o Caos criou o cosmos e as divindades da mitologia grega. Os homens se acalmam porque acreditam que Deus venceu a Morte. Talvez tenha sido a Morte, em sua misericórdia e narcisismo, que criou esse reconfortante alento para que fosse possível viver à sua espreita. Assim, ela não parece tão horripilante. Essa crença me caía muito bem: eu andava de elevador. Essa crença me caía muito bem até o ponto em que caiu por terra.

Nosso humilde aparelho psíquico aguenta até certo ponto. Acho que ultrapassei essa barreira. Foi na época em que trabalhei com crianças e adolescentes morrendo por câncer. Lembro-me de sonhar que eu raspava o cabelo deles. Angústia. Só sei que entrei lá andando de elevador e saí pelas escadas.

Chegou o momento de fazer algo, não com a fobia, mas com a minha relação com a Morte. Precisamos fazer as pazes. Esses véus que eu usava já não me cabem mais. Talvez esta escrita seja o contorno que consigo dar, ao menos hoje. Amanhã, outras palavras.

Texto escrito por Paula Braga (praticante e aluna em Gradiva)